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Diário de Buenos Aires - Epílogo

Terça-Feira, 26 de Maio 2009

Chaban, Ibarra, a puta que los parió!

Neste momento, passou na Plaza del Congresso a passeata dos familiares das vítimas da catástrofe do República Cromagnon, a tal danceteria que havia pego fogo no dia 30 de dezembro, ocasião em que morreram quase 190 pessoas e se feriram outras centenas. Desde que chegamos à Argentina este foi o assunto em todas as capas de jornais. O país estava de luto, perplexo com a sua própria tsunami de chamas assassinas.

As vítimas foram principalmente jovens de periferia, mas também crianças e adolescentes indefesos – a média de idade dos mortos não ultrapassava os 18 anos. Quanta tristeza e indignação! Revoltados, todos queriam algum tipo de Justiça, se é que seja possível fazer justiça após um fato como este. Omar Chabán, o responsável direto pela danceteria, que eles chamam de boliche, foi preso. Encontraram nove irregularidades, entre permissão de funcionamento vencida, público superior ao permitido (3 mil, quando o máximo seria 1.000, disseram), ausência de aviso à Polícia, falta de detector de metais na entrada e a presença considerável de menores de 18 anos.

Todas elas, se formos analisar, são freqüentes em todo o Brasil e teriam boas justificativas na defesa. O pior, no entanto, foi deixar as saídas de emergência trancafiadas com cadeado para evitar o acesso de penetras. Quando a banda em ascensão Callejeros começou o seu show, algum estúpido e irresponsável soltou um rojão, que os argentinos chamam de bengala. O fogo se alastrou naquele velho galpão coberto com material sintético no bairro do Once e transformou o local numa verdadeira sucursal do inferno.

Pois bem, tão logo a passeata passou embaixo do meu quarto lá pelas 9 horas da noite, desci para a praça e engrossei as fileiras do protesto. A massa, com mais de 8 mil pessoas, vinha desde o tal boliche para a Plaza de Maio, em frente à Casa Rosada, o centenário local de marchas e protestos. Seguimos todos pela Avenida de Mayo, a mais madrilenha da cidade, aos gritos e canções. A maioria era formada por jovens. Havia dignidade na caminhada e no olhar de cada um. Protestavam contra a tragédia mas também contra a situação geral do país, que oferece cada vez menos oportunidades aos mais jovens. Enquanto isso, a Sossa acompanhava tudo pela TV nos intervalos da Cleopatra.

Dezenas carregam fotos dos mortos na tragédia, outras centenas levavam velas acesas. Protestavam espontaneamente e não estavam ali como massa de manobra. Não permitiram faixas de nenhum partido ou sindicato. De quando em quando, entoavam hinos e marchas que não consegui identificar muito bem, apenas a parte em que gritavam “Ibarra, Chabán, ... a puta que los parió”. Ibarra, o intendente de Buenos Aires, transformou-se no segundo maior culpado pelas mortes. Isto porque, como prefeito, deveria ter fiscalizado os boliches que cometem tantas irregularidades. A massa queria sua cabeça!

Por isso, a uma quadra da Casa Rosada, pararam em frente à sede da Prefeitura e bradaram mais palavras de ordem e ofensas contra Ibarra e Chabán, este último, além de sócio e gerente do República Cromagnon, um obscuro artista da cena underground portenha. Como diria o General gorila Hurco no seriado televisivo dos anos 70 do Planeta dos Macacos, quando desmascarou a tentativa de golpe do seu “amigo” e antigo colega de academia, o Haboro: “Chabán, você está acabado, Chabán, acabado!”

A polícia acompanhou toda a manifestação e fez um eficiente cordão de isolamento, com grades de ferro e homens da tropa de choque protegendo a prefeitura e a Casa Rosada. Tiveram que ouvir toda a sorte de impropérios e vilipêndios contra sua honra e a de suas progenitoras. Instruídos a não reagir, só revidaram quando foram atingidos por objetos e pedras. Um velho ao meu lado vomitou ofensas e palavrões sem parar, deixando-me até constrangido. Ao final da manifestação, prenderam oito pessoas, todas elas já fichadas anteriormente como baderneiros.

Infelizmente, não levei minha máquina fotográfica para documentar aquela noite. Antes do final dos protestos, resolvi matar minha curiosidade jornalística e conhecer a tal República Cromagnon. Peguei o metrô na Avenida de Mayo e desci três estações adiante, na Plaza Miserere, um lugar degradado já visitado pela Sossa e o Lulu quando eu estava em Palermo com o Leo. Com ressalvas, perguntei a um ambulante onde ficava o boliche. Ele me apontou o outro lado da praça. Atravessei-a atentamente e me aproximei de uma pequena multidão.

Sentados, de pé ou caminhado, duas centenas de pessoas, a maioria jovens, faziam vigília em frente às paredes queimadas do República Cromagnon. Fotos das vítimas se misturavam a centenas de velas acesas. Os parentes e amigos guardavam um luto quase silencioso. Aqui e ali se ouvia algumas preces e cochichos. Um ambiente de tristeza e consternação. Carros e vans da imprensa e de estações de TV estavam de plantão. No chão, muita sujeira. Tudo isso uma semana após a mortandade, cujos desdobramentos pude acompanhar atentamente, todos os dias, pela TV e pelos jornais. Não chores por Evita Argentina, chore por seus “pibes” ...

Sexta Telmo

Já em clima de fim de viagem, escolhemos algo mais ameno para a sexta-feira, que nos colocasse mais em contato com o passado portenho e seus encantos. Um novo táxi – o Leo queria um modelo antigo, que não existe no Brasil, mas não conseguiu parar nenhum e fomos no tradicional mesmo, e lá estávamos nós na Plaza Dorrego, coração de San Telmo, um bairro antigo a cerca de 10 quadras da Casa Rosada. O nome da Praça, obviamente, gerou comentários dúbios entre os meninos, que puderam ao menos dar boas risadas com os trocadilhos.

O calor já assustava quando lá descemos e, comportadamente, passamos a visitar algumas galerias e lojas de antiquários. Incrível a quantidade de lojas e peças antigas de valor à disposição, de estátuas e bustos a quadros e peças. Assim como Buenos Aires é um museu a céu aberto com uma quantidade impressionante de monumentos, as ruas de São Telmo guardam preciosidades, como uma estátua de Michelangelo achada recentemente e por acaso em um antiquário do bairro, conforme relatou o motorista de táxi que nos levou até lá.

Em uma das galerias, vimos armas e brinquedos antigos, assim como telefones e máquinas fotográficas. Um vendedor tentou me vender um hidrante por US$ 200, mas achei que seria excêntrico embarcá-lo para o Brasil como bagagem de mão. Numa das lojas, o Lulu comprou sozinho seu regalito por quatro pesos, uma bola meio cafona para se pendurar em qualquer lugar, como espelho de carro, segundo ele. Em outra galeria, que foi a residência dos Ezeiza, que dão nome ao aeroporto internacional, nos encantamos com a magia do local, com três diferentes alas em cada um dos dois andares. Durante décadas foi um cortiço, mas depois foi restaurado abrigando lojas e cafés. No centro, uma majestosa árvore espinhuda com bancos ao redor para descansar.

A sede se fez presente e fomos então para um café antigo, em na esquina em frente à Plaza Dorrego, com o mesmo nome. Os meninos pediram suas “gasosas” e nós o tal chopp deles. Serviram amendoim na “faixa” e ordenamos dois sanduíches, sendo um de salame. O tempo passou agradável, um casal de gays sentou-se ao nosso lado e eu ainda tirei uma foto ao lado de uma chopperia do século passado simulando estar tirando seu precioso líquido. Decidimos então visitar museus.

Como a igreja tradicional do bairro estava fechada, fomos ao museu de arte moderna. Embaixo, uma exposição de fotos contemporâneas que incluía uma obra que considerei interessante, embora não fosse um instantâneo: uma tabela de algum artista meio devasso, que descrevia, desde os anos 70, todas as suas aventuras com prostitutas. A tabela indicava a data do negócio, o nome da meretriz, quanto fora pago na transação (literalmente) e o que havia sido (feito) acordado, digo, efetuado no referido e efêmero relacionamento. No mínimo, criativo.

No piso, superior, uma espécie de instalação em vedo mostrava mais ou menos a visão dos cegos. Cansados de arte moderna, fomos andando até a Plaza Lezama, onde ficam a Igreja Ortodoxa Russa (também fechada para visitação naquele dia) e o Museu Histórico Nacional, que só abriria às 15 horas (que horário??). Pedi a um estrangeiro que tirasse uma foto de nós quatro juntos, e o gringo acabou tirando duas. Enquanto o tempo passava, fui comprar um gatorade e mais água, pois naquele momento o calor chagava ao seu ápice e, finalmente, o tempo mudara e indicava que um temporal estava a caminho.

Como o relógio bateu nas 15 horas, entramos no museu, uma espécie de Ipiranga portenho, e corremos os olhos atentamente por grandes quadros de pintores impressionistas retratando batalhas e conquistas, missas e fundações, com destaque para o insuperável San Martin – a quem me referi inadvertidamente num táxi como San Martã, com sotaque francês, para a alegria da Sossa, que queria se vingar da Esmerrrrrrralda!). Fiquei sabendo que os ingleses tentaram invadir e dominar as colônias espanholas do Prata em 1806 e 1808, chegando a tomar Buenos Aires por meses. A bronca com os ingleses, portanto, já vem de longe.

Lá fora do museu, o céu desabou numa gostosa e densa chuvarada, que chegou a causar alguns alagamentos superficiais e trouxe alívio momentâneo para o calor. Ainda debaixo de água, pegamos um táxi de volta para o hotel, que finalmente tinha consertado o ar condicionado. A refeição na noite fizemos no famoso Palacio de Lãs Papas Fritas, na avenida Corrientes, para onde fomos a pé. O garçom disse que a casa funcionava há mais de 60 anos, mas frisou que não trabalhava lá desde o início. Tomamos vinho da casa e dividimos pratos de carne, massa e batatas fritas a moda da casa. Em 1988, quando havia vindo a Buenos Aires pela primeira vez, juntamente com uns lunáticos de esquerda numa ridícula Caravana pela Paz, pelos Direitos Humanos e contra a Pena de Morte no Chile, lembro-me de ter comido no mesmo restaurante.

À noite, eu e a Sonia fomos assistir à peça “La Señorita de Tacna”, no teatro Maipu. Descobrimos que o costume por lá é, antes de tomar o acento, aguardar uma espécie de guia para nos levar às nossas cadeiras e, então, deixar umas monedas na mão dele. Só fizemos a primeira parte ... A peça, escrita por Vargas Losa e estrelada pela primeira dama do teatro argentino, Norma Aleando, a mesma de um recente e excelente filme argentino em que o pai do personagem principal quer se casar na igreja com a mãe, já debilitada pelo mal de Alzeimer.

Apesar das profundezas da trama, onde um tal de Belisário narra histórias envolvendo a sua família, o amor, o dinheiro e coisas do tipo, consegui pegar uns 70% dos diálogos e a Sôssa, uns 40 – ela dormiu uma meia hora na segunda parte do espetáculo. Já eu, quando as pálpebras pesavam, fui subitamente despertado com a entrada em palco da mais bela das atrizes com a roupa em que veio ao mundo. E assim ela ficou uns 5 minutos, cativando a platéia cada vez mais atenta. No final, claro que valeu a pena, e aplaudimos bastante, dando a entender a todos nossos vizinhos de cadeira que havíamos compreendido tudo. Bravíssimo!

Saindo o teatro, pegamos a calle Florida e logo adiante a Sonia comprou um Cd de tango. Desistimos da danceteria Voudu Lounge (sugestão minha para ver de perto os argentinos na gandaia) e fomos a um pub três ruas abaixo. Matei a vontade de tomar Guiness embora cada caneca tenha saído por quinze pesos. Era uma da matina quando chegamos ao hotel, sempre um pouco preocupados como o Lulu. Dormia como um anjo enquanto o Leo assistia a TV no quarto.

Descansando em paz

Sábadão. Dia de retornar ao Brasil. O traslado para o aeroporto estava previsto para às 13:45 min, o que nos dava a manhã inteira livre para um último passeio. E Leo, com seu sono profundo de adolescente em crescimento, preferiu o conforto e o ar condicionado do quarto do hotel Íbis. Eu saí preparado para correr, com roupas sumárias – short de corredor, camiseta dryfit da Corpore e tênis. Juntamente com o Lulu e a Sonia, fomos diretamente, de táxi, ao cemitério da Recoleta. Antes, visitamos a Igreja do Pilar, ao lado da morada eterna da elite portenha. A Igreja do Pilar, acho que presente em centenas de cidades católicas, possuía uma acervo com características barrocas, altares exuberantes de algum artista com o talento do Aleijadinho.

Em seguida, entramos no cemitério. Lindo, denso e aparentemente vertical, isto é, todos os jazigos cresciam para cima do solo em variados formatos, monumentos e estilos. Corredores geométricos e muitos personagens históricos descansam por lá, entre eles o ex-presidente e educador Sarmiento e a incomparável e sensacional Evita Perón, no Jazigo dos Duarte, longe de seu Perón, enterrado na Chacarita. Engraçado, o corpo - ou restos mortais - de Evita passou muitos anos em local desconhecido tal a força daquele símbolo feminino morta aos 34 anos, a mesma faixa etária de ícones como Alexandre, o Grande, Jesus, James Dean e Airton Senna.

Achamos o túmulo de Evita, trazido para lá da Espanha após a morte de Perón, em 1974 e tiramos fotos. A Sossa pegou uma carona numa história contada por um guia turístico em frente ao túmulo de uma jovem argentina, morta no primeiro dia de sua lua-de-mel em Bariloche, nos anos 70, quando foi atingida por alguma avalanche ou enxurrada. Os pais, inconformados, transformaram o subsolo do jazigo, onde está o caixão, numa réplica do quarto da filha amada. Em cima, à vista de todos, uma estátua esverdeada, em tamanho natural, da filha vestida como noiva. Realmente, muito chique para uma falecida.

Como estava próximo a Palermo, pensei no Mamé – não sei se é assim que se escreve, mas ele vivia naquele bairro. Fiquei triste ao lembrar de sua morte, em um desastre de carro, ano passado, quando ia para sua fazenda em companhia da esposa, a Sarina. Não sei onde está enterrado. Há 16 anos, ele havia recebido os jovens pombos recém-casados Guto e Sonia em Buenos Aires para um almoço. Em 2003, ou 2004, tínhamos nos visto na fazenda, em Ribeirão Preto. Pensei no Charles e na Gogóia, e na viagem de navio em que meu padrinho havia conhecido seu colega argentino nos anos 60.

Minha intenção quando viemos para a Argentina era encontrar a Javiera, filha do Mamé, após uma forte recomendação da Celina durante nossa temporada em Ubatuba. Mas, às vésperas da viagem, não consegui localizar a Celina para pegar o telefone. A Gogóia tinha ficado de falar com ela, que estava na Barra do Sahy, mas não conseguiu. Também nem sei se a Javiera estaria em Buenos Aires naquela semana, já que os portenhos costumam viajar esta época para a praia ou locais com temperatura mais decente.

Bem, voltando ao cemitério, terminamos a visita olhando diversos túmulos alheios, ficando sempre com aquela esquisita sensação de que um dia também repousaremos em algum lugar parecido, certamente bem menos sofisticado, devidamente enterrados e exalando algum tipo de lembrança em alguém que eventualmente nos visite. Lembrança esta uma singular síntese de nossa vida, uma história, uma imagem, um sentimento. Do pó viemos ao pó voltaremos ...

Antes de retornarmos ao hotel, passeamos por um shopping de design, onde compramos algumas lembranças e pude ir ao banheiro me livrar de uma indesejável indisposição intestinal, e numa feirinha em frente ao cemitério, aproveitando para adquirir uma camiseta de Buenos Aires para o Lulu.

De volta ao Íbis, um rápido banho, arrumamos as malas e descemos para a recepção. Acertarmos o que restava da conta e a Sôssa ainda ajudou um pobre senhor brasileiro que acabava de ser assaltado na Plaza del Congresso. Abatido, ele queria trocar alguns míseros reais que o bandido havia desprezado por pesos, com o objetivo de pegar um táxi para seu hotel. A Sôssa fez um câmbio generoso ...

Deixamos as malas no hotel e fomos almoçar na esquina da Praça no mesmo café onde havíamos jantado três dias antes. Comemos carne e pizza. O ar condicionado do café pifou e eu preferi saborear a sobremesa numa “heladeria” próxima – sorvete de “dulce de leche com nuez”. Voltei para o hotel e em poucos minutos estávamos num Renault que nos levou a Ezeiza. Antes da chegada ao aeroporto, eu e o motorista conversamos um pouco sobre os levantes de La Tablada e dos Carapintadas, que assolaram a Argentina no final dos anos 80 sob os obscuros comandos de Seneldlin, o turco, e de Aldo Rico. Que papelão!

Fizemos o check in mas não conseguimos lugares um ao lado do outro. Gastamos os últimos 20 pesos comprando chocolates e afins e embarcamos numa aeronave menor e mais sem graça que a da vinda. Sentei ao lado de uma advogada funcionária pública que estudava para outro exame que aconteceria no dia seguinte. Eram 70 mil candidatos para umas 500 vagas no Tribunal Regional do Trabalho em Belo Horizonte, me parece. A moça namorava um argentino há dois anos e se visitavam periodicamente.

A Sossa sentou entre um “pigeon” argentino, com camiseta da seleção e um outro estrangeiro completamente lunático, até que o Luis apareceu e justificou a mudança de acento.

Chegamos em São Paulo lá pelas 19 horas. No free shopping, comprei chocolate e uma garrafa de Balantines. Pela última vez, pegamos um táxi, dessa vez um baiano arretado e que falava rápido nos levou até o apartamento na Capitão Pinto Ferreira. Fizemos aquele xixi básico, o Leo tomou um banho e pegamos o Clio para mais três horas de viagem até Ribeirão Preto, com muita música e boa conversa.

Chegamos depois da meia noite, já no domingo. Teríamos um dia para desfazer as malas. colocar as coisas em ordem e pegar no batente. Buenos Aires foi maravilhosa, mas já fazia parte do passado. Agora, 2005 estava começando pra valer, ao menos para mim e para a Sonia. Valeu e até a próxima, se Deus quiser, em breve ...


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