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“As neves do Kilimanjaro”, um dos melhores e mais famosos filmes levados às telas de todo o mundo em 1952, certamente ajudou a tornar mais famosa a montanha mais alta da África, com 5.895 metros de altitude. Baseado em uma obra de Ernest Hemingway e estrelado por Gregory Peck, Ava Gardner e Susan Hayward, a história retrata os dilemas de um escritor ferido enquanto fazia um emocionante safári aos pés do Kilimanjaro, hoje localizado na Tanzânia. Fica na parte oriental do continente africano, oriundo de um complexo de três vulcões que começou a crescer na planície, regado pela erupção de lavas, há mais de 750 mil anos e se extinguiu cerca de 360 mil anos atrás.
Mais de meio século depois, o clima de aventura e fortes emoções permanece nas imediações e nas encostas desta montanha imponente, que emerge das savanas e atrai milhares de turistas e aventureiros todos os anos. Assim como Harry Street, o personagem vivido por Gregory Peck, os viajantes de hoje também querem, de alguma maneira, descobrir na África algum novo significado em suas existências, mas ao invés de fuzilarem rinocerontes, preferem tentar alcançar o topo do continente como desafio para o corpo e a para a alma.
Afinal, colocar os pés no cume do Kilimanjaro é uma experiência única e inesquecível, tanto para experimentados alpinistas quanto para montanhistas principiantes. A jornada dura de cinco a oito dias e proporciona tudo aquilo que alguém imbuído de espírito aventureiro pode esperar: esforço físico, paisagens deslumbrantes e que mudam drasticamente à medida que se ganha altitude, uma intensa convivência com os tanzanianos e, é claro, muitas fotos bonitas para mostrar à família e aos amigos.
Vulcão isolado
O Kilimanajro é um vulcão extinto e uma das maiores montanhas isoladas do planeta, ou seja, que desponta para as nuvens sem pertencer a nenhuma cadeia ou cordilheira, como acontece com os grandes picos nevados nos Andes, nos Alpes e no Himalaia. Ele surge na savana, a pouco mais de 1.000 metros acima do mar, e eleva-se quase cinco quilômetros verticais, oferecendo neste heterogêneo trajeto florestas, plantas exóticas e cenários lunares, com temperaturas que variam de 20 graus na base a 20 graus negativos no topo. Uma verdadeira salada climática que encanta pela diversidade e pela beleza da vista, abaixo e acima das nuvens que insistem em esconder a montanha.
Para subi-la, como o fez pela primeira vez na história o alemão Hans Meyer em 1889, basta tomar a decisão. Eu vou! E foi o que eu fiz em julho de 2005. Do Brasil para lá, o caminho mais curto passa pela África do Sul, onde um vôo de Joannesburgo faz a ligação com Dar es Salaan, a capital da Tanzânia, banhada pelas águas do Índico e onde a tsunami do início do ano chegou a matar meia dúzia de pessoas que estavam na praia. De Dar es Salaan para o Aeroporto Internacional do Kilimanjaro existem vôos diários que duram cerca de uma hora para percorrer os cerca de 600 km do trajeto. Dependendo dos interesses e da programação do viajante, ele pode fazer a sua base na cidade de Moshi, aos pés do Kilimanjaro, ou em Arusha, a 70 km da montanha, cidade com cerca de 1 milhão de habitantes. Há quem prefira viajar para a Tanzânia via Europa embora o trajeto seja maior.
O Kilimanjaro oferece diferentes vias de ascensão e uma série de acampamentos intermediários, onde o montanhista passa apenas uma noite antes de prosseguir na escalada. A mais conhecida é a Rota Marangu, com menos dificuldades e cabanas que acomodam dezenas de pessoas a cada pernoite. A via que vem atraindo um número cada vez maior de montanhistas chama-se Machame, considerada um pouco mais difícil e bonita, e que comporta mais gente em seus acampamentos.
O acesso ao Parque do Kilimanjaro se dá a uma altitude de 1.700 metros no Portão de Machame. Na alta temporada, como nos meses de julho e agosto, ela atrai milhares de europeus e norte-americanos em suas férias de verão. Diariamente, dezenas deles iniciam a caminhada rumo ao topo pela Machame acompanhados de guias e mais de uma centena de carregadores em meio a uma densa e úmida floresta que lembra a nossa Mata Atlântica. São cerca de 16 quilômetros de subidas constantes em trilha bem formada e invariavelmente barrenta. Em cerca de 5 horas alcança-se o primeiro acampamento, também chamado de Machame, a 3 mil metros de altitude, quando a copa das árvores abaixa em meio a um nevoeiro bastante comum.
Acampamentos
De lá, já é possível avistar Kibo, o vulcão extinto do Kilimanjaro com suas encostas nevadas acima de 5.500 metros de altitude. No segundo dia de ascensão, as árvores se transformam em arbustos, corvos passar a voar perto em busca de alimentos e a trilha prossegue íngreme e um pouco mais selvagem em direção ao acampamento de Shira, a 3.800 metros de altitude. Neste ponto, a jornada já ganha algumas rotinas, como o chá quente e a pipoca oferecidos na barraca pela equipe de apoio, que faz questão de chegar antes para montar a barraca e oferecer maior comodidade ao cliente quando este chega da caminhada.
Os acampamentos são verdadeiros pontos de encontro de diferentes nacionalidades. Os montanhistas se reúnem para tomar alguma bebida quente e se hidratar, contar um pouco das experiências do dia, tirar fotos e esperar tranquilamente a noite que se aproxima. Então, todos se dirigem às suas barracas para o descanso merecido, o corpo geralmente com algumas dores musculares. Uma boa noite de sono é essencial para a subida do dia seguinte.
De Shira, a aventura segue para o acampamento de Barranco, somente 100 metros mais alto, mas no trajeto a expedição pode passar por Lava Tower, a 4.650 metros de altitude. Trata-se de um ponto onde já não há mais praticamente vegetação e grandes pedras vulcânicas tomam conta do cenário, tornando-o árido, selvagem e atraente. Os primeiros problemas de aclimatação ocorrem normalmente aí. Isto porque, apenas em três dias de aventura, atingi-se uma altitude respeitável e de maneira rápida. O corpo costuma reagir e a dor de cabeça é o sintoma mais comum, ou seja, mais sangue circulando para levar o oxigênio necessário ao cérebro. Hora então de descer e tomar um analgésico.
Já no acampamento de Barranco, nada melhor do que recuperar as forças e beber muito líquido para o dia seguinte, que será a véspera do tão sonhado ataque ao cume. Mais uma noite fria na barraca dentro do saco de dormir numa altitude ainda de grande umidade e chuvas freqüentes. Trata-se de uma região onde as sinécias, uma espécie de bromélia gigante do Kilimanjaro, enfeitam a paisagem e atraem a atenção do viajante. Elas chegam a alcançar 10 metros de altura com seu caule que absorve as folhas e cresce formando uma das principais atrações botânicas de toda a expedição.
De Barranco, o destino é Barafu numa rota sinuosa, cheia de subidas cansativas e descidas escorregadias. Depois que se atinge a altitude de 4.200 metros, as rochas vulcânicas novamente tomam conta do caminho e a vegetação praticamente acaba, dando espaço a um grande deserto de pedras e poeira. Mas o mais impressionante neste momento e deixar as insistentes nuvens do percurso literalmente para trás, ou melhor, para baixo. Um enorme colchão de nuvens se estende até o horizonte enquanto acima de nossas cabeças o sol aparece vigoroso e brilhante, assim como o céu e seu azul anil.
Um ponto chama a atenção na paisagem: o cume do Monte Meru, distante mais de 80 quilômetros dali, a 4.566 metros de altitude e ao lado da cidade de Arusha. Alguns montanhistas preferem começar a aventura na Tanzânia escalando este pico como aclimatação para o Kilimanjaro. A subida do Meru conta com muitas atrações já que nas suas trilhas pode-se avistar grandes animais, como girafas, búfalos e, com um pouco de sorte, até um elefante ou um leopardo. Em razão disso, guarda-parques armados acompanham os turistas que, ao subir neste pico, têm uma visão privilegiada do Kilimanjaro no horizonte.
A jornada do quarto (ou quinto dia da expedição, dependendo da condição e da aclimatação do montanhista) termina em Barafu, a 4.600 metros de altitude, um acampamento em meio a pedras imponentes e com uma vista esplendorosa do Mawenzi, um pico do complexo do Kilimanjaro situado a 5.149 metros de altitude. Sua ascensão requer escalada técnica, uma missão para alpinistas mais experimentados. Mas apenas sua visão ao pôr-do-sol e sua silhueta de Castelo Ra-Tim-Bum já compensa a viagem. Vale a pena exercitar a máquina fotográfica enquanto se aguarda a aventura do dia seguinte.
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