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Ave avô

Sexta-Feira, 1 de Maio 2009

Naquele início de noite, em meados de junho de 1977, em Belo Horizonte, meu pai, depois de deixar o trabalho, de gravata afrouxada e seu indefectível terno marrom, como de costume, fora me buscar no clube após mais um treino meu de natação. No caminho entre a piscina e o carro, em seguida a algumas perguntas sem muita importância a respeito do treinamento, ele soltou a notícia: “O Vovô Briza morreu”.

Em menos de seis meses, eu, um garoto de apenas 10 anos, perdia dois avôs, primeiro o paterno e depois o materno, e deixava o resto da minha infância e adolescência órfãs da sempre significativa figura de um vovô. E hoje faço uma reflexão sobre quem foi ele e o que representou para mim. Na memória, me vem sempre uma figura simpática e atenciosa, como muitas vezes assisti nos filmes caseiros de super 8, de um velho e alinhado homem andando vagarosamente na praia em Guarujá.

Recordo-me de algumas poucas visitas feitas por ele a Belo Horizonte, na casa da Vila Paris. Um senhor que se vestia com orgulho, um olhar marcante, o cabelo sempre bem penteado, o bigode bem aparado, os movimentos tranquilos, um sotaque pronunciado para algumas palavras com a letra R. Contava algumas histórias, uma delas, se não me falha a memória, de uma longa fila de bichos passando debaixo da ponte.

Acontece que, pelo fato de a tal fila de bichos nunca terminar, eu jamais conseguia escutar o fim da história. “Ora bolas, vovô, diga qual é o final?”, eu indagava afoito e com uma ansiedade infantil. A resposta era sempre a mesma: os tais bichos, tão bem desenhados na minha imaginação, nunca terminavam de passar embaixo daquela bendita ponte.

Infelizmente, ele faleceu antes da manada infinita cruzar minha até hoje frágil compreensão dos fatos. Aos poucos, no decorrer dos anos, fui pescando aqui e ali algumas características e fatos que marcaram a vida do Vovô Briza. Ao que tudo indica, era um homem que sabia apreciar a vida. Uma figura que acreditava nos sonhos embora a realidade, volta e meia, o acordasse para as reais necessidades do cotidiano.

Encarava as empreitadas com vigor, disposto a vencer os desafios. Acreditava em suas idéias, muitas vezes novas e arrojadas. Talvez muitas não vingaram porque ele estivesse um pouco à frente do seu tempo, ou porque o mundo teimava em não deixar um sonhador colocar seus sonhos em prática, ou, por último, por que não era para dar certo mesmo.

Enfim, andou para lá e para cá, inspirado pelo espírito itinerante do pai, Joseph. Também para lá e para cá carregava a família, de Ibitinga a Rio Claro, da fazenda à cidade, de São Paulo ao Mato Grosso. Sempre atrás de oportunidades de trabalho, negócios de ocasião, crescimento ou de uma vida melhor.

Seu legado é considerável, a começar pelo DNA perpetuado nos filhos: o D de Oduvaldo e de Davi; o N de Nilza e o A de Américo, isto sem contar o caçula e temporão Cao, É, vovô Briza, lamento não ter tido mais oportunidades de conviver com você. Mas tenho certeza que, naquele dezembro de 2001, estivesse onde estivesse sua alma naquela cerimônia, digamos, de transposição dos seus ossos do cemitério de Belo Horizonte para o de Cravinhos, o senhor devia estar feliz com a homenagem.

De quebra, ainda pude assegurar-lhe naquela oportunidade que a Vóia, sua estimada e às vezes emburrada esposa que jazia por ali há uma dúzia de anos, com quem tanto convivi e me diverti na infância e adolescência, depois de tantos anos separada do marido, o perdoaria por qualquer eventual deslize cometido em vida e o acolheria, com carinho, no descanso eterno de Cravinhos.

Antes de terminar este texto, peço aos leitores que prestem um pouco de atenção num quase imperceptível barulho que vem lá de algum lugar. Não é o vento, não é o trânsito nem tampouco os passarinhos cantando. Trata-se de um punhado de bichos passando debaixo da ponte. Sim, a vida prossegue e por mais que atentem contra ela, a danada continua a passar debaixo da ponte, sem parar, rumo ao futuro. É por isso que esta história nunca terá um fim, e é essa mensagem que o velho Briza deixou para seu neto. Ave avô!


Comentários

Nome: sonia
Data: 04/05/2009 09:05

nada como entrar no site da Conceito para atualizar as notícias da empresa e me deparar com textos tão especiais. bjs,

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