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Existe um lugar no mundo
onde sentimos tudo mais a fundo
o clima é suave, de aparência sincera
a tristeza quase imperceptível, já era
os sentidos, sem pruridos, são aguçados
as sensações, soberanas e adocicadas
Existe um lugar no planeta
Especialmente desenhado na prancheta
Um projeto, uma reta, uma praia de arquiteto
Nele, a chuva não cai, mas desliza e distrai
O sol aparece e se esconde, o mormaço vem e vai
Os raios aquecem atrás das nuvens e revelações
Nossas peles queimadas e manchadas de recordações
Existe um lugar na mata
que faz da existência uma obra pacata
Seus barulhos são sinfonias da natureza
Bichos e pássaros que cantarolam com muita clareza
O céu, ora azul, ora estrelado, muitas vezes nublado
Oferece proteção e inspiração a solteiros e casados
Abraços, beijos, gemidos, instinto sem alarido
Existe um lugar na costa
Onde a tranquilidade está bem posta
o bem estar perdura, a vida não é dura, apenas a praia
caminhadas matinais, várias baladas de ida e volta
seguidas de braçadas e pernadas até e ao longo da raia
sem camisa, sem intriga, sem coriza, com a moral lá em cima
O movimento, rápido, contínuo ou lento, sem lamento
Pés descalços na areia, longe da aridez do cimento
Existe um lugar no impressionante horizonte
Da varanda ao destino uma imaginária ponte
Onde Lázaro gostaria de ressuscitar
Sim, uma praia para na eternidade avistar
Mar, montanha, por alguns dias nosso lar
Quem respira e aprecia gostaria de lá estar
Existe um riacho na ponta da praia
que abriga castelos e barragens
Crianças se tornam reis ou engenheiros
A natureza se diverte, quase inerte
A água límpida se desvia, acerta o prumo
Rumo ao oceano verde azul insano
Existe um lugar aos pés do Corcovado
onde gente de família gosta de ficar lado a lado
o almoço, sem muito esforço, é sempre um grande alvoroço
a comida, que fervorosa acolhida no estômago
Mas o âmago, a pimenta que nos acalenta,
É o sabor de cada receita temperado pela atmosfera
Tropical, singela, digna de uma aquarela
De sobremesa, mais prazer com certeza
Depois, fazer a sesta é o que nos resta
Na testa, quase sempre uma expressão de festa
Existe um canto na mata com uma formidável ducha
que revigora o sangue até de um bola murcha
O coração bate forte, alegre, sem muito luxo
e o fluxo mágico da água cristalina massageia a derme
nos ensina que a vida é bem vinda,
jorra ondas de amor e calor, de alívio e de dor
jorra felicidade e tristeza, alegria e melancolia
Deságua saudade e espírito de solidariedade,
Ensina que satisfação e sucesso não têm idade
Existe uma casa em dezembro
em que predomina uma matriarca
Senhora na qual os anos se manifestam de maneira parca
Uma mulher que dita o ritmo e, como uma menina do istmo,
que sem aviso e ao acaso, acelera os passos
Haja pernas e compasso para acompanhá-la lá na frente
Nas caminhadas da praia, nas páginas dos livros, na mente
Tudo passa pela sua sabedoria e seu crivo
Ela dá o tom da temporada, atenta para que não falte nada
Saúde, conversas, música, lembranças,
literatura, humor e piada,
Aprendizado, opiniões, bons costumes,
morango, queijo e torrada,
Existe um espaço especial na memória
Onde guardamos as melhores histórias
Algumas delas férias, outras conquistas e glórias
Lembranças de um tempo generoso e de esperanças
Crianças pequenas e crianças adultas,
Brincando na grama, pisando na lama
Jogando cartas e bolas, e muita conversa fora
Buscando desafios anos a fio
Subindo montanhas, atravessando mares
Explorando os arredores, dias cada vez melhores
Existe uma poesia que dispensa e valoriza a rima
O plano diz que os versos são recitados uma vez ao ano
Quando a família se reúne na praia, imune
as ondas arrebentam as sondas
o futuro, sem furo, é bem mais claro que escuro
o fim é assim, apenas um recomeço
no ano que vem estaremos todos juntos e de bem
com a aniversariante cada vez mais radiante
diante de si, diante de nós, diante do poderoso tempo
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