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Fragmentos de um Iron Man I

Terça-Feira, 5 de Maio 2009

Fragmentos de um Iron Man IDepois de 10h26min de esforço praticamente interrupto, cheguei ao famoso funil de chegada. Lá estava o tapete, o público aplaudindo e incentivando, o dia escurecendo e esfriando a ilha de Florianópolis num inesquecível 24 de maio de 2003. Mais uns poucos metros e lá estava a linha, a fronteira final entre dois estados de espírito. Confesso que uma certa frieza que me tomara conta nas últimas horas foi ligeiramente aquecida; afinal, pessoas batiam palma para mim, me davam a mão e realmente valorizavam aquele insólito momento.

Não, não era aquilo que eu realmente imaginava sentir, não era aquilo que eu ao menos planejara sentir. Mas, claro, tinha valor e significado. Levantei os braços no momento de cruzar a tal linha de chegada – queria sair bem na foto. Apertei o botão do cronômetro do relógio, caminhei uns poucos passos e recebi a medalha (oba!), uma toalha e uma camiseta de finisher. Mais alguns passos acompanhado de um voluntário e lá estavam a Sonia, carinhosa e receptiva, e o Rodrigo. Ufa! Fui direto para a barraca de massagens, onde um exército de pessoas atendia um pelotão de “feridos”.

Já na maca, sendo massageado por duas simpáticas estudantes de fisioterapia, pude finalmente tentar relaxar e interpretar a incrível salada de emoções e sensações vividas naquele dia. Com fortes dores nas pernas e num acelerado processo de hipotermia, chorei como uma criança esperando que aquelas sinceras lágrimas aliviassem o sofrimento, a raiva e a sensação de injustiça pela desclassificação. Um providencial cobertor e a chegada da Sonia ao acampamento dos desvalidos recuperaram a auto-estima. Sim, apesar de tudo, parecia que eu podia, de fato, ser chamado de Iron Man.

* * * * * * * * * *

O dia 24 de maio tinha começado cedo. Às 4:30h da madrugada, soou o despertador, mas eu já estava meio acordado fazia mais de hora. Preocupações gastrointestinais (ou seriam psicológicas) me tiravam um pouco do sossego, mas sentia-me preparado. Todos os detalhes haviam sido checados para as etapas de natação, ciclismo, corrida e transições. Na natação, roupa de borracha emprestada, vaselina para não irritar a pele, toca, oclinhos e o short e a camiseta da speedo por baixo.

Na bike, óculos escuros e capacete, camisa de ciclismo com o número de prova fixado atrás, meia e sapatilha, luvas e a carga de alimentos e bebidas: duas garrafinhas com maltodextrina nos suportes do quadro da bicicleta, três sanduíches de queijo branco, uma maçã, castanhas, quatro sachês de power gel chocolate, seis cápsulas do aminoácido BCAA e dois remédios para dor, tudo socado nos bolsos traseiros da camisa de ciclismo.

Para a corrida, um par de tênis leves e novos da adidas, boné do patrocinador Golden Bingo, os mesmos óculos escuros, meias secas, pocheta com o número de prova fixado com alfinetes, mais três sachês de power gel, mais 4 cápsulas de BCAA e mais duas pílulas de remédio contra a dor, além é claro, do short e camiseta da Speedo.

* * * * * * * * * *

O café da manhã foi tranqüilo na Pousada Mar de Jurerê. O frio e o vento assustavam um pouco. Os outros atletas comiam calados, concentrando-se para a prova. Antes das 6 horas já estávamos no carro; o Rodrigo me levou de Honda Civic e demos carona também para o Renatinho Dantas. No local da saída, várias filas se formavam para que os atletas tivessem seus números de prova pintados na pele. Enquanto esperava minha vez, observei o Renatinho em outra fila. Rosto sério, carregando uma sacola, lá estava um dos favoritos para vencer a prova no amador. Tirar a roupa quentinha para ser numerado na perna e nos braços foi um primeiro sacrifício ...

O dia vinha amanhecendo e a agitação tomava conta da praia. Quase 800 triatletas esperavam ansiosos o início daquele grande desafio. Chequei se tudo estava certo com a bike na transição (esqueci apenas de tirar um pedaço de durex que ficou atado à roda de trás) e abasteci a minha sacola de transição para o ciclismo com os sanduíches. Vesti a roupa de borracha, dei uma última ida ao banheiro e fui para a areia. Lá me despedi da Sonia e do Rodrigo, que desejaram a última boa sorte, e ainda dividi alguns momentos de expectativa com o Jader e o Osvaldo, valentes representantes de Ribeirão Preto. Depois da largada dos profissionais às 7 horas, posicionei-me nas primeiras filas do amador. Queria cair na água entre os primeiros e assim evitar o vale-tudo de braçadas, socos e ponta-pés corriqueiros em natação de Iron Man.

* * * * * * * * * *

Foi dada a largada para o amador, uma manada com mais de 700 protagonistas. A água não estava assim tão fria. Com a adrenalina em alta, encontrei o estilo, o ritmo e a “trilha” adequados. O mar estava agitado e ondulado, dificultando a movimentação. Percebi que não daria para fazer um bom tempo, mas as condições estavam adversas para todos. Logo encontrei o meu pelotão, isto é, quem nadava na mesma velocidade. Antes que eu esperasse, apareceu a suposta bóia a ser contornada. Nadei forte de encontro a ela e, ao contorná-la, percebi que alguns triatletas seguiam adiante e outros faziam o mesmo que eu. Não tive dúvidas (que burrice!!) e fiz o contorno, achando que aqueles que seguiam em direção oposta estavam redondamente enganados em função do mar irregular e da luz do sol nascente, que ofuscava nossa visão.

O mar piorou depois disso, pois tínhamos agora que nadar literalmente contra as ondas. Confiante, acelerei e percebi que estava entre os primeiros. A segunda bóia demorou um pouco mais para ser superada e, em seguida, rumei para a praia. Quando botei os pés na areia, caminhei com rapidez, tirei o óculos de nadar e olhei o cronômetro. Pouco mais de 30 minutos????????? Ouvi gritos e a Sonia, na torcida, soprou que eu estava em quarto. Quarto lugar?????? Ao meu lado, um atleta portador deficiência, sem uma perna, que era o terceiro colocado. Algo me pareceu bem estranho. Ninguém da organização disse nada. Corri para a transição em busca dos meus apetrechos de ciclismo.

* * * * * * * * * *

A transição, como de costume, foi lenta. Tira roupa de borracha e toca, veste camisa de ciclismo, coloca as comidas nos bolsos, veste as meias e as sapatilhas, coloca o capacete, as luvas os óculos escuros, sai correndo (ou sapateando) como o Fred Astaire, pega a bike, empurra até a saída da transição, monta nela e soca o pedal! Uma infinidade de segundos, muitos minutos! Achei tudo muito vazio, afinal, onde estariam as outras dezenas de triatletas? Comecei a pedalar, as pessoas ao redor gritavam e torciam enquanto o vento gelado fustigava o corpo ainda molhado.

Logo nos primeiros quilômetros percebi a trapalhada. Tinha errado, juntamente com outra dúzia (ou dúzias) de competidores, a maldita bóia da natação! A conclusão foi bem mais agressiva que o vento. Meses de treinamento, sonhos e esforços e, naquele momento, um mico gigantesco para administrar. Pensei no filme do Super-Homem que, ao perder a amada, voara na velocidade da luz em movimento contrário ao da rotação da Terra, conseguindo (por alguma razão que até hoje não entendi) voltar no tempo e salvar a dita cuja. Infelizmente, no caso, eu era um pobre candidato a homem de ferro e não a homem de aço!

Pedalei uns 20 km sendo ultrapassado neste período por apenas uns dois ciclistas tão desclassificados e desalentados quanto eu. O público que me via com a camisa de ciclismo verde-amarela gritava “vai, Brasil” achando que eu era um brazuca atleta de elite. Só não gostavam da minha medíocre velocidade em cima da magrela. Um pouco antes de chegar na avenida Beira-Mar, o “carro-cronômetro” da prova me ultrapassou e logo atrás o líder. Mais alguns segundos e foi a vez do Galindez passar como uma flecha. Quer dizer que, até aquele momento, eu era o líder?

* * * * * * * * * *

Um a um, os competidores foram me deixando para trás. Um, dois, três, dez, vinte, etc. Que diabos! Além de desclassificado, humilhado! Parecia que eu tinha rodinhas na bike. O vento piorou, mas o que não tinha remédio, remediado estava. Que tal curtir um pouco as belezas da ilha? O céu azul, o mar, as montanhas e mais uma bike me ultrapassando. O duro seria explicar para todo mundo aquele imbróglio! Pois é, errei o caminho. De repente, a Sonia e o Rodrigo me alcançam de carro e deram uma injeção de ânimo. “Você não está desclassificado, houve confusão, dá o sangue!”, gritaram enquanto filmavam e fotografavam. Resolvi tentar acreditar, enfim uma notícia para levantar o ânimo. Até ali a Fernanda Keller estava atrás de mim, quem diria!

As pernas, particularmente as coxas e as batatas, pareciam travadas, enrijecidas. Nos treinamentos, não havia sentido aquilo. Parecia resultado da fadiga com o frio. Diminui o ritmo e passei a pedalar um pouco de pé procurando momentos de alívio. Bebi e comi o quanto pude enquanto o tempo passava. Com cerca de três horas, a primeira volta de 90 km estava terminada com uma parada em uma das barracas de apoio. Desci da bike, fui ao banheiro e fiz um xixi de um minuto para alegria da minha bexiga. Em seguida, mandei para o estômago um powergel, um remédio para dor e uns comprimidos de BCAA. Montei novamente na magrela a parti para a segunda volta.

Felizmente, as dores diminuíram e o mundo seguia inexorável. Praia de Jurerê, Daniela, Centro, Norte da Ilha, Ingleses, vento e muito vento. Houve descidas em que a velocidade não chegava a 27 km/h; algumas lufadas de vento jogavam a bicicleta perigosamente de lado. Os pedidos insistentes da molecada para que arremessássemos as garrafinhas de água durante todo o trajeto começaram a irritar. “O tio, joga a garrafinha”, gritavam os impertinentes pentelhos, a todo tempo e a toda hora, mendigando uma simples caramanhola e pouco se importando com as necessidades e esforços dos competidores, que se desfaziam das tais garrafas quando precisavam reabastecer nos postos, mas sempre em movimento. Deu vontade de arremessar, sim, mas na testa dos mais atrevidos ...

O tempo passa, o tempo não voa e aqueles dolorosos 180 km de ciclismo não chegavam ao fim: faltam 5,4.3,2,1 km, eba! O microfone anuncia a chegada do atleta Gustavo Junqueira, de Ribeirão Preto. Desci da bike na linha da transição, deixe-a com algum voluntário e fui correndo como um pinguim para a barraca de troca. Tão logo alcancei o local, um burocrático staff da organização me interpelou e decretou: “366, você está desclassificado”. “Por que?”, retruquei. “Você cortou caminho na natação mas pode continuar correndo, se quiser”, sentenciou.


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