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Diário de Buenos Aires I

Segunda-Feira, 18 de Maio 2009

Prólogo

Fundada duas vezes no século XVI, Buenos Aires soube atrair nos séculos seguintes o que melhor havia da Europa colonizadora, principalmente da Espanha. Com a libertação do país comandada por San Martin na década de dez do século XIX, aquele centro urbano começou a crescer. O educador Sarmiento, nos anos de 18 70, presidiu o país e praticamente erradicou o analfabetismo em Buenos Aires.

Entre 1880 e 1940, a cidade experimentou um crescimento espantoso, com palácios, ruas, monumentos, metrô, cultura e um desenvolvimento invejável. Depois, erros, ditaduras, anacronismo da economia e outras mazelas baquearam Buenos Aires, que todavia continua linda.

Para o turista, os bairros da Boca, San Telmo, Centro, Puerto Madero, Recoleta e Palermo, praticamente um ao lado do outro, é o que interessa. A leitura atenta de um guia e de um mapa coloca o visitante facilmente dentro de uma fascinante experiência em locais como as Plazas de Mayo, del Congresso, San Martin, Itália, Dorrego, Lavagne; avenida Nueve de Julio, Del Libertador, Corrientes, Córdoba, Alvear e Callao, calles Florida, Reconquista, Esmeralda e por aí vai.

Esta foi a Buenos Aires que nos recebeu (eu, Soniae nosso filhos Leo e Luis), na primeira semana de 2005. E esta é uma história que poderá e deverá ser esquecida, já que nada de tão especial aconteceu, a não ser a extraordinária vivência de uma despretensiosa família em férias, buscando prazeres e reflexões inerentes ao turismo e à vida. Esquecida, porém uma história que será relembrada ou apenas pinçada toda vez que alguém tiver a paciência ler o diário que se segue, hoje ou daqui a 100 anos. Amém

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Você mentiu pra mim!

Calor. Muito calor e uma Buenos Aires brilhante, dramática e pulsante nos aguardavam nessa primeira semana do ano de 2005. Desembarcamos na capital portenha eu, a Sonia, o Leo e o Lulu, quatro cavaleiros um pouco apocalípticos e sedentos por lazer, novidades, cultura e experiências. O vôo conjunto Varig/TAM foi agradável, naquele tipo de aeronave com nove fileiras, mapa digital de viagem e som com fone de ouvidos.

Viajamos segunda-feira, dia 03, de Ribeirão Preto a São Paulo de carro, pela manhã, e encontramos o Joca no apartamento de São Paulo. A tradição paterna de levar filhos ao aeroporto se manteve. Doze horas após deixar a Lina em Cumbica, lá estava o velho Joca deixando gentilmente a família Buscapé em Guarulhos. Após uma tranqüila espera que incluiu desde leituras descompromissadas na Laselva a almoço no McDonald´s, pegamos o nosso vôo e em pouco mais de duas horas estávamos em Ezeiza, onde um motorista já previsto no pacote da TAM Viagens já nos esperava para o traslado ao hotel Nogaro, a cerca de 100 metros da Plaza de Mayo, onde fica a Casa Rosada.

No trajeto entre o aeroporto e a cidade, o Lulu já foi prestando atenção na frota Argentina na tentativa de identificar a maior quantidade possível de BMWs e Mercedes. Pela primeira vez ele estava pisando em solo estrangeiro, assim como o Leo conhecia pela primeira vez a Argentina. Para mim, era a quinta vez enquanto para a Sossa era a terceira oportunidade no vizinho. Nossa primeira vez juntos havia sido em novembro de 1988, na lua-de-mel. Em 2003, havíamos passado rapidamente em Buenos Aires a caminho e no retorno da Patagônia. Desta vez, estávamos em quatro naquela van – a bem da verdade, um casal de São Paulo nos acompanhava a caminho do hotel Íbis, para onde mudaríamos no dia seguinte com a desocupação de dois quartos.

O hotel Nogaro é bem razoável, embora seja um pouco lento no atendimento e pelo fato de nos ter colocado em dois quartos bem ao lado de uma obra. Depois de acomodados, conversamos com a guia disponibilizada para nos ajudar, agendamos o famoso city tour pela cidade na manhã seguinte e fomos jantar em Puerto Madero. Disseram que era próximo para se ir a pé, pero no mucho. Pegamos a calle Florida, por onde seguimos alguns quarteirões, viramos à direita na Corrientes e descemos para a região dos diques.

O caminho pelo calçadão da Florida já vale o passeio, misturando a beleza histórica dos edifícios com a decadência de uma economia que afundou de vez em 2001. A Corrientes, com tráfego intenso, também reserva atrativos visuais. Na baixada, o cenário ficou mais feio, mas logo alcançamos Puerto Madero, composto por quatro diques margeados por dezenas, talvez centenas de restaurantes e escritórios. A antiga zona portuária de Buenos Aires foi devidamente revitalizada tornando-se um lugar agradável para caminhar, passear, comer e divertir-se.

Fomos ao Madeleine, o único jantar incluído no pacote. O ar condicionado, na área “no fumador”, trouxe alívio para o calor estimulado pela caminhada. Pedimos massa e um “pollo”, cerveja e refrigerantes. O restaurante não estava cheio – aliás, milhares de portenhos deixam a capital em janeiro em busca de praias e temperaturas mais amenas. Foi uma boa refeição e resolvemos tomar então um sorvete no Freddo, a principal “heladeria” da cidade. Caminhamos mais um pouco pelo calçadão que acompanha o dique sob protestos do Lulu, que queria voltar ao hotel imediatamente, e de táxi.

Como havíamos prometido a ele o regresso motorizado tão logo deixássemos o restaurante, o caçula se revoltou já cansado do dia que começara a milhares de quilômetros dali e se estendera tanto. Virou-se para a Sonia, e aos prantos, acusava: “Você mentiu pra mim! Você mentiu pra mim!”. Era um choro sincero, de quem estava sofrendo muito, agoniado, traído, cansado. A manha não sensibilizou tanto assim seus progenitores, muito menos o Leo, que adotou o “você mentiu pra mim” pelo resto da viagem. Mas, ato contínuo, o Leo demonstrou toda sua solidariedade sanguínea carregando carinhosamente o Lulu por uns 200 metros ao longo do píer, até a sorveteria.

No Freddo, arrisquei o tradicional sabor doce de leite com noz; o Leo saboreou um delicioso sorvete de menta. Sossa e Lulu, que a princípio não pediram nada, renderam-se ao clamor de suas gulas e também fizeram seus pedidos.

Retornamos ao Nogaro de táxi, para deleite do Lulu. À noite, com o ar condicionado sem termostato congelando nossos quartos, a Sossa mostrou sua competência quando o assunto é proteger o caçula e seu sistema respiratório suscetível a problemas e ataques. De camisola no corredor do hotel, localizou uma longínqua portinhola para abri-la e desligar um fusível que baixou consideravelmente o ímpeto da refrigeração. Dormimos bem e acordamos dispostos para a nossa primeira manhã portenha.

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Na Boca, seu Palermo!

Às nove em ponto da manhã uma espaçosa van nos pegou no Nogaro para o City Tour. Antes, arrumamos as malas e as deixamos no depósito no hotel para fazermos a transferência para o Íbis no retorno do passeio. Ao contrário do que temíamos, o city tour não foi nem demorado nem enfadonho. Passamos em mais quatro hotéis e começamos a jornada pra valer. Fomos novamente à Plaza de Mayo, onde descemos para visitar a catedral, tirar fotos, apreciar altares e a arte religiosa, bem como conferir de perto a morada eterna do libertador San Martin, o mesmo que atazanou os espanhóis conquistando na marra a independência do Chile e do Peru.

O city tour prosseguiu por alguns pontos óbvios até o bairro da Boca, onde a van parou estrategicamente em frente ao estádio da Bombonera. Imaginei ser difícil vencer o Boca naquela panela de pressão. Em 2001, o Palmeiras arrancou um 2 x 2 na final da Libertadores, mas perdeu nos pênaltis em São Paulo. Depois foi a vez do Santos tomar de dois também na final. Quem se deu melhor ali recentemente foi o Paissandu, que surpreendentemente venceu o time da casa na Libertadores de 2003, embora tenha sido depois goleado em Belém.

Os argentinos são fanáticos por “futbol” e dedicam páginas e mais páginas dos jornais para falar de cada equipe – Boca, River, Independiente, São Lorenzo, Vélez, Newel´s e por aí vai. E não é só o tal de Olé não, o “La Nacion” e o “El Clarin” também. Na semana que estivemos lá, estavam promovendo uma pesquisa junto ao leitores com o intuito de eleger quem era o maior jogador do clube de todos os tempos. Obviamente que Don Dieguito liderava, mas não tão na frente de jogadores como Riquelme e Palermo – acho que aquele que perdeu três pênaltis numa só partida.

Na parada da Bombonera, o Leo comprou um regalito. Embarcamos novamente na excursão até o “Caminito”, uma espécie de templo do tango. Qual não foi nossa surpresa ao depararmos com um som forte e inconfundível de uma bateria carnavalesca e bem brasileira. Os invasores se exibiam por ali em troca de “monedas” dos turistas, mas considerei aquela manifestação cultural uma invasão em território alheio. O problema é que o local transformou-se na Disney portenha, na praia de Copacabana dos argentinos.

Muito comércio, gente querendo vender de tudo e mais um pouco. Não aprecio muito este tipo de ambiente pois fico logo acuado. Já o Lulu se diverte e, se pudesse, comprava de tudo um pouco.

Tiramos fotos, inclusive para comparar com aquelas batidas em novembro de 1988. Caminito, fui! No final, a van nos deixou nos arredores da Florida para que gastássemos um pouco mais em compras. Antes, porém, fomos induzidos a adquirir uma engraçada fotomontagem em que aparecemos, nós quatro, em frente à Casa Rosada, dançando tango. Não deu pra resistir e pagamos os 25 pesos cobrados, incluindo o porta-retrato.

Deixamos a passo veloz aquela zona de consumo fácil. Cambiamos trezentos dólares por 880 pesos num banco da Florida, fomos ao Nogaró pegar as malas, passando antes por uma construção do século XVII caracterizada pelos meninos como medieval, e pegamos um táxi para o Íbis, na Plaza del Congresso, distante umas 10 quadras. Estávamos então efetivamente instalados para o resto da viagem, ocupando os quartos 1204 e 1203, um ao lado do outro, com ampla vista da praça em frente e do Congresso, uma construção inspirada no Capitólio.

Escolhemos o Café Tortoni, de 1860, para almoçarmos. Fica na Avenida de Mayo, que liga o Congresso à Casa Rosada, a uma quadra e meia da Nueve de Júlio, uma das mais largas vias do planeta, onde fica o Obelisco que, por sua vez, dizem as más línguas, foi inspirado no tamanho do ego dos argentinos. Quanto a mim, depois desta viagem, perdi todo e qualquer rancor contra nossos “hermanos” e poderia, pasmem, até torcer pela seleção deles dependendo do adversário. O Café Tortoni possui uma decoração pesada e interessante, com fotos, quadros e adereços que arremetem para várias épocas. Muitos famosos passaram horas, ou melhor, dias naquelas mesas, incluindo Gardel, reis, presidentes e outros notáveis.

A caminho do Tortoni, paramos na estátua “O Pensador”, uma das originais de Rodin, quase abandonada na Plaza Del Congresso e avaliada em US$ 2 milhões, segundo um motorista. No café, pedi um sanduíche de “lomo”, o Lulu quis pizza. O Leo, de sobremesa, ordenou o tradicional submarino. Um copo de leite com uma barra de chocolate. Tiramos uma foto legal dos quatro virados para o espelho.

Conversamos bastante e começamos a dar risada das besteiras faladas e que não seriam poucas durante toda a viagem. Uma clássica foi a Sossa falando portunhol com um dos inúmeros motoristas de táxi que pegamos. Ao invés de dizer calle Esmeralda, ela carregou no “erre” como se fosse uma francesa ou alemã. Resultado: a todo momento, ríamos com a “Esmerrrrrralda”; parecia a atriz Berta Loran dizendo, na antiga “Praça é Nossa“ que uma criança precisava de muito “carrinho” quando, na verdade, queria dizer “carinho”.

Outra da Sôssa que ficou marcada na viagem, tendo agora o Leo como “vítima”. O primogênito, como todo “aborrescente” que se preze, não aprecia atualmente muito contato físico, principalmente em se tratando de beijos e abraços paternos. Pois a Sôssa, aproveitando alguns bons momentos de bom humor do Leo, insistia em contar alguma coisa para ele daquele jeito “Leo, você não acredita no que eu vi ...”, quando sempre apoiava sua mão no ombro, no braço ou na perna do filho querido, como qualquer mãe faz. O Leo, sorrateiro, deslizava invariavelmente em sentido oposto, para ficar fora de alcance do carinho materno.

Assim, aproveitei a deixa e, repetidamente, passei a utilizar o estratagema. “Leo, você não sabe da última ...” para, sempre que podia, alcançá-lo em abraços sinceros mas irônicos, principalmente quando ele amolava em excesso o Lulu. Claro que, tão logo eu dizia, com voz matreira e tonalidade suave, o “Leo, você não vai acreditar ...”, ele imediatamente se esquivava ou batia em retirada. A brincadeira pegou e demos bastante risada, todos nós, ainda mais quando o Lulu, ao falarmos sobre miséria, perguntou se Buenos Aires teria uma população muito maior do que a Favelinha da Roça, isto é, a Favela da Rocinha. Esmerrrrralda!

Depois do Café Tortoni, dividimos o grupo. Sossa e Lulu fizeram atividades menos cansativas enquanto eu e o Leo fomos a Palermo, de metrô, ou de “subt”, como é mais conhecido. Descemos na estação Plaza Itália, andamos pelo Jardim Botânico, caminhamos em seguida pela calçada de fora do Jardim Zoológico e fomos até um parque que me pareceu ser o “3 de Ebrero”. Sem camisa e cansados, descansamos debaixo de uma sombra onde foi possível até tirar uma sonequinha. Depois, caminhamos um pouco mais e sentamos num banco para observar os portenhos se exercitando. Alguns corriam, outros pedalavam e patinavam, ou caminhavam.

Segundo o Leo, no entanto, o esporte predileto do argentino é largar-se em qualquer parque ou banco de praça, debaixo de sol, chuva ou sombra, de dia ou de madrugada. Em todas as nossas andanças, vimos centenas, para não dizer milhares, nesta situação. Pareciam realmente prostrados e, mais do que isso, à toa, sem ter o que fazer. Nas palavras contundentes do Leo, “os argentinos são muito loucos”. Pois bem, depois de zombarmos um pouco do tipo físico de cada um que passava a nossa frente, fomos educadamente interpelados por um casal já idoso, que queria lugar no banco, acintosamente ocupado por nós, para se sentar. Conversamos durante uns cinco minutos e partimos. Logo adiante, encontramos uma barra onde fizemos algumas séries do exercício.

Continuamos nosso caminho sem muito rumo e pegamos o metrô de volta, com troca de linha na estação Plaza de Mayo. O dia já estava ganho e aproveitamos aquela terça-feira quente e inesquecível para jantar, os quatro, ali mesmo no Hotel Íbis.

Durante aquela tarde, a Sossa e o Luis, depois de um pouco de refresco no ar condicionado do hotel, partiram para a experiência do metrô. Pegaram a linha vermelha e foram até a Praça Miserere para “explorar” . A tristeza do local – muita gente à toa e catando coisas dos lixos chocou um pouco os dois que estavam habituados a ver as belezas do centro.

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