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Diário de Buenos Aires II

Terça-Feira, 19 de Maio 2009

Colombiano?

O calor parecia que não ia dar trégua. Então, já que estávamos na chuva, era pra se molhar mesmo, isto é, enfrentar os raios solares com a bagagem adquirida durante a penca de anos que passamos em Ribeirão Preto. Assim, na quarta-feira, optamos por um programa matutino esportivo e bem menos turístico: a Reserva Ecológica Costanera Sur, atrás de Puerto Madero e de frente para o majestoso Rio da Prata. Pegamos um táxi após o café da manhã e por volta das 10 horas, quando a temperatura, ou melhor, a sensação térmica, já ultrapassava os 35 graus centígrados, entramos na pista da Reserva.

Eu escolhi a volta de 8 km para correr, circuito que faz o perímetro do Parque. A Sossa e os meninos optaram por uma volta mais curta, de uns 3,5 km, em ritmo de caminhada. O bacana do circuito é que podemos observar o “skyline” de Buenos Aires, com arranha-céus com mais de 40 andares. A Reserva, em si, não oferecia grandes novidades, principalmente para quem está acostumado a caminhar em montanhas e no cerrado brasileiro. Mas valeu a pena. Cruzei com alguns argentinos correndo – todos em ritmo mais lento do que o meu – e pedalando.

Uma pena o Rio da Prata ser poluído por ali, já que seria uma excelente opção de natação. Várias placas alertavam para não entrar naquelas águas escuras mas, de certa maneira, convidativas. Na metade do trajeto, uma área de descanso com bancos e sombra convidava para uma parada que permitiria uma melhor contemplação do “rio-mar”. Navios distantes passavam no horizonte e o Uruguai estava bem fora do alcance da vista.

Terminei o percurso em 40 minutos, um tempo aceitável para quem só tinha compromisso com o lazer e tinha um sol inclemente castigando a testa. Quando fui beber água na torneira da entrada do centro de visitante, uma simpática argentina corredora me ofereceu sua própria garrafinha, que para minha surpresa estava deliciosamente gelada. Perguntei, meio sem ter o que falar, “se era buena para se beber”, ao que ela respondeu “se não fosse, não la ofereceria”. “Claro, seguro”, concordei ainda mais sem graça.

Perguntou então se eu era colombiano, talvez pelo meu sotaque, talvez para mexer comigo. “No, brasileño”. Descobri que ela havia corrido 12 km e ainda ia pedalar mais um pouco. “Suerte”, desejei-lhe, enquanto se afastava. Me concentrei no alongamento e nas flexões, bem como em duas visitas ao banheiro para espremer o short absolutamente encharcado de suor. Minutos depois a Sossa chegou com os meninos, saímos da Costanera e fomos para a avenida em frente, mais arborizada e com sombras bem mais convidativas do que a trilha realizada.

Paramos num pequeno parque onde o Lulu se divertiu num navio de brinquedo e assustou-se com uma “enorme” aranha de uns três centímetros. Bem próximo dali, encontramos uma outra diversão: uma espécie de teia de aranha gigante, construída com cordas e suportes. Ali, o Lulu, o Leo e, no final, eu, trepamos à vontade. Depois, caminhamos mais um pouco para pegarmos outro táxi de volta ao hotel. O motorista, espanhol, falava pelos cotovelos e já havia morado no Rio de Janeiro. Contou, em seu apressado portunhol, que seus cunhados que moram em Duque de Caxias já foram sequestrados algumas vezes, mas insistem em morar por lá.

Depois de um merecido banho no Íbis, decidimos ir de metro ao Shopping Abasto, o maior de Buenos Aires, onde havia ao menos a garantia de um ar condicionado. Almoçamos no Burger King já que os meninos queriam conhecer o grande concorrente do McDonald´s que acaba de aportar no Brasil. Depois, deixamos o Lulu e o Leo no Museo de los Ninos, e seguimos eu e a Sossa para dar uma volta nas imediações do shopping, local por onde viveu Carlos Gardel. Se não achamos o museu do dito cujo, encontramos ao menos sua estátua, que justificou uma foto. De volta ao shopping e a sua temperatura paradisíaca, visitamos algumas lojas, como a Zara.

Quando fomos buscar os meninos, o Lulu preferiu continuar no museu enquanto o Leo foi procurar algum outro regalito. O Lulu disse que o museu é o sonho de qualquer criança. Mexeu em guindastes e fez outras inúmeras experiências sem que encontrasse na língua uma barreira. Ele já estava orientado que, caso se perdesse, informasse a quem o achasse: “Yo não hablo espanhol. Por favor, hotel Íbis, na Plaza del Congresso”. Por supuesto!

Antes de voltarmos ao Íbis, fizemos algumas compras no supermercado ao lado, principalmente água, frutas e uma caixa de sorvete. No final da tarde, eu e a Sonia aproveitamos outro acessório de nosso pacote turístico: uma hora grátis, sem nenhum custo adicional, de aula de tango. Ingenuamente, fomos de sandália ao curso, num salão no primeiro andar do hotel, o que atrapalhou sobremaneira nossas tentativas de harmonizar nossos passos no ritmo da música. Até que o professor foi simpático, bem como os outros alunos, alguns brasileiros e italianos. Repetindo: um, dois, três, quatro (pequena pausa), ciinco, seis, sete , oito. Primeiro, a perna, depois, o peso do corpo. Um, dois, três, quatro (pausa), cinco, seis, sete, oito.

Realmente, como dançarino de tango, sou um ótimo triatleta. Mas conseguimos pegar o básico do básico da lição número 1. Para melhorar, teríamos que praticar, de preferência com calçados mais adequados. Até o final da viagem, entretanto, não conseguíramos encaixar uma ida a um show de tango. Um bom motivo para retornar a Buenos Aires, já que em todas vezes que lá estive nunca assisti a um espetáculo tipo marca registrada da cidade.

Alguns são considerados para turista ver, mas existem outras inúmeras opções mais tradicionais, menos badaladas e a um custo mais acessível. O casal de brasileiros que conhecemos na van do aeroporto a caminho do hotel gostou bastante de um show numa casa ali mesmo, na Plaza del Congresso. Falando em casal brasileiro, mal sabíamos nós que o até então desconhecido casal Eduardo e Rita, de Sorocaba, estava prestes a tentar o sonhado cume do Aconcágua, empreitada na qual ele perderia a vida em breve.

Meu amigo Topan também estava lá na montanha e bateria dali a poucos dias o recorde brasileiro, sul-americano e, quiçá, mundial solo de ascensão da base (Plaza de Mulas) ao cume, com o espetacular tempo de 5h22min, sete minutos abaixo que o Pauletto em 1996, ocasião em que eu também estava lá e o acompanhei passando por Nido de Condores. Em 2002, fiz de Nido de Condores ao topo em oito horas, só para comparar e valorizar as duas marcas obtidas pelos meus dois amigos “aconcagueiros”.

Voltando a Buenos Aires, à noite, deixamos os “niños” no hotel e pegamos um táxi na avenida Callao até a Recoleta,. Lá, andamos e conferimos a agitada noite deste charmoso bairro portenho. Paramos no La Biela, outro dos tradicionais cafés da cidade em cujo salão passaram também as mais variadas celebridades. Nas paredes, quadros e fotografias de corredores famosos de automobilismo, que elegeram o café como ponto de encontro – daí o nome La Biela. Tomamos vinho e conversamos bastante naquele vazio e histórico ambiente. Pelo vidro, do lado de fora, víamos crianças de 3 a 7 anos brincando e pedindo esmolas, uma triste realidade que chegou a Buenos Aires nos últimos anos, aproximando ainda mais a Argentina com seus vizinhos latinos americanos.

Tigre de Malvinas ...

Quinta-feira e a temperatura em elevação. Que tal um programa de barco? Outro táxi e logo estávamos descendo na Plaza San Martin, no final da Nueve de Julio. Primeiro, observamos o palácio San Martin, onde se realizam as reuniões do Mercosul. Uma construção imponente e soberba, encomendada no início do século passado pela família Anchorena que, pelo que pude perceber, não devia estar passando por dificuldades financeiras. Começamos a identificar os pequenos aposentos e logo localizamos aquele que deveria pertencer ao Divino, ou melhor, ao jardineiro da família. Ficava no canto e devia ter apenas uns 200 metros quadrados.

Seguimos em direção à esquina das calles Suipacha e Arroyo, a umas três quadras. Lá um monumento homenageia as 17 vítimas fatais e os 200 feridos do atentado à bomba contra a Embaixada de Israel. Que estrago! Coisa de profissional da Al Qaeda ou palestinos. Aconteceu em 1992 e me recordo bem da notícia que acompanhei pela TV na época. O Lulu e o Leo se interessaram pelo local, principalmente pelo poder destrutivo da bomba.

Voltamos a Plaza San Martin, passamos pelo monumento e começamos a descer em direção à Estação do Retiro. À direita, observamos o Edifício Kanavagh, construído em 1936 e supostamente o mais alto da América do Sul naqueles tempos, se bem que achei o paulistano Martineli ainda maior. Na Praça em frente à estação e à Torre dos Ingleses, fica o memorial aos seiscentos e tantos argentinos que perderam a vida na Guerra das Malvinas, em 1982, quando a Argentina foi um tigre de papel perante a Inglaterra.

A Sôssa, num misto de humor e preocupação, disse que logo haveria mais duas vítimas do conflito. Seriam os dois pobres guardas que vigiavam o monumento, em trajes de gala e sem mexer nem mesmo as pálpebras em absoluta posição de sentido. Os coitados derretiam debaixo do sol impiedoso, mas a honra e o dever os faziam respeitar a memória do país.

Atravessamos a avenida, entramos na bela Estação do Retiro, erguida em ferros e arcos, e pegamos um trem para Mitre. Meia hora depois, embarcamos em outro trem, agora com ar condicionado, para a cidade de Tigre. Outra meia hora e lá estávamos, no delta do Rio Paraná (não é o nosso, como cheguei a imaginar). Enquanto esperávamos um barco para dar uma volta de uma hora pelos canais próximos, tomamos algum refresco para aliviar a sede. O detalhe é que, enquanto eu pagava o ticket do passeio do barco, pedi a Sonia que segurasse uma latinha de cerveja Kilmes ainda cheia que eu bebericava com grande prazer, pelo calor e pelo fato de ser a mais gelada que eu até então conseguira na Argentina.

Inadvertidamente, ela deu a lata ao Lulu junto com uma garrafa de água, já vazia, pedindo que ele jogasse no lixo. O Lulu, que é o maior opositor das minhas investidas etílicas, atirou minha pobre latinha na latão de “basura”. Fiquei possesso e distribui broncas sem economizar no vozerio. Depois, me arrependi e acabei tomando mais duas cervejas na barco, todavia muito distante da temperatura ideal.

O barco percorreu dois canais e entrou num principal, com casas de veraneio nas duas margens. Com arquitetura variada e muito arborizadas, as residências não podem ser alcançadas por carro. Em alguns lugares, banhistas se refrescavam no rio, com águas da cor da lama mas não poluídas. Na década de 70, quando a mamãe fez o mesmo passeio, as casas estavam meio abandonadas, mas pelo jeito a classe média e mais abastada da Argentina recuperou aquele interessante espaço de lazer aos fins de semana e nas férias.

O passeio durou apenas uma hora. Quando desembarcamos, tomei um delicioso suco de morango batido na hora no único lugar em que eu vi esta opção na viagem. Sonia e os meninos não quiseram, sob meus protestos. Pegamos o trem de volta, com a troca agora “downgrade” em Mitre. Ao invés de desembarcarmos na Estação do Retiro, pulamos fora uma antes, na 3 de Ebrero, em Palermo, na expectativa de visitar, segundo constava em algum guia, a maior mesquita islâmica do mundo. Já eram 3 da tarde e descobrimos que os mulçumanos só permitam a entrada ao meio-dia. Que horário mais esdrúxulo! Somente meio-dia? Sim , respondeu o guarda, e a duração da visita era de aproximadamente 40 minutos.

Tiramos fotos daquela suntuosa construção e rumamos de táxi pela avenida del Libertador para o Bullrich, considerado o shopping mais chique de Buenos Aires. Novamente, em trajes quase de praia, nos aliviamos em um ambiente climatizado e muito bonito. Escolhemos um lugar gostoso para almoçar, sempre incluindo uma boa carne e apetitosas batatas. Passeamos pelo shopping e observamos, um pouco preocupados, as entradas do Lulu e do Leo nas mais sofisticadas lojas em busca de um sobretudo para o Leo, o seu atual e maior desejo de consumo. Quem na vida nunca quis ter um sobretudo? Felizmente eles não compraram nenhum, seja pelo preço e ou pela temperatura do lado de fora do Bullrich.

Depois do longo dia de passeio, voltamos também de táxi no final da tarde para o Íbis. Tão logo chegamos, os recentes apagões de energia de Buenos Aires atingiram a região central. Resultado: subi pela escada com a Sonia os 12 andares até o quarto, pois o elevador deixou de funcionar, e encaramos as próximas quase 24 horas sem ar condicionado no hotel. O gerador, pelo visto, só dava conta da luz. Um banho frio aliviou o calor, mas o conforto da refrigeração havia se escafedido. Após um merecido descanso, começamos a assistir na TV do quarto ao filme “Cleópatra”, que na Argentina se chama “Cleopatra”, a rainha paroxítona.


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